“Hoje, sou casa, não ruína.” É nesse gesto de reconstrução que se ergue “Mulher Inteira”, livro de poemas da escritora, atriz e slammer soteropolitana Ludmila Singa, publicado pela Solisluna Editora. A obra será lançada no dia 10 de outubro, às 18h, na Livraria Terra Libris, localizada dentro do Cinema Glauber Rocha, em Salvador. O livro já está em pré-venda pelo site da editora – Link Aqui (https://encurtador.com.br/
Antes de se tornar livro, Mulher Inteira foi travessia. A obra começou a nascer durante o processo de análise vivido pela autora, a partir do contato com memórias da infância e da adolescência e de questões que, segundo ela, permaneciam difíceis de acessar. A publicação é um encontro da autora com territórios íntimos marcados por feridas, afetos, desejos, perdas e pela necessidade de compreender as próprias formas de dar e receber amor.
Ao longo de quatro movimentos, a poesia acompanha uma mulher que se desfaz de versões de si que já não a sustentam para reconstruir, nos próprios fragmentos, uma existência mais livre e soberana. “Mulher Inteira começa a nascer enquanto eu estava em processo de análise, de autoconhecimento, pois entendi que havia questões profundas nas memórias da minha infância e adolescência que eu não conseguia acessar sozinha”, conta Ludmila.
Foi nesse processo de investigação de si que a palavra “inteira” ganhou outro sentido. Alguns poemas surgiram a partir das sessões e reflexões, enquanto outros já estavam escritos desde 2018, guardados longe dos olhos do público. “A maioria dos poemas que já estavam escritos eu nunca recitei em minhas andanças pelos saraus, eventos, festas e festivais literários”, revela Singa, que é slammer a cerca de uma década.
O resultado é uma obra que percorre corpo, prazer, amor, amizade, luto, espiritualidade, ancestralidade, autonomia e renascimento, transformando experiências pessoais em uma escrita que oscila entre delicadeza e contundência. A inteireza, aqui, não é apresentada como um estado definitivo, mas como uma escolha cotidiana diante de tudo aquilo que insiste em nos fragmentar.
Quatro Atos para se Tornar Inteira
No primeiro movimento, Território Reconquistado, poemas como A Arte da Renascença, Ela Não Se Curva, Bisturi, Devir, Sol Miúdo e Carta para Quem Já Fui conduzem essa primeira passagem. O corpo aparece como território a ser retomado e a memória como matéria de transformação. “Dentro de mim há territórios inexplorados: sou minha própria terra prometida”. Em A Arte da Renascença, essa reconstrução ganha forma: colar os cacos, reconstruir o peito e reconhecer a própria casa depois da ruína.
O segundo movimento, Corpo, Prazer e Palavra, desloca o centro da experiência para o corpo. A sexualidade, o prazer, a linguagem e a autonomia aparecem como dimensões inseparáveis de uma mesma experiência de liberdade. O corpo não é objeto observado de fora, mas território de decisão. “Habitar o próprio corpo é um ato revolucionário.”
Em poemas como Pele Inteira, Lúcida, Orgástica, Olhos de Dentro, Corpo Tempestade, Verbo, Flecha e Oração, Ọ̀FỌ̀ e Oráculo, Ludmila constrói uma linguagem que não pede autorização para existir. Há dez anos, Ludmila recita em transportes públicos e participa de slams – hoje integrante do Slam das Minas Bahia, saraus e do movimento hip hop, experiências que, segundo ela, influenciaram a própria construção da linguagem de Mulher Inteira.
É nessa dimensão que a poesia de Mulher Inteira também se aproxima de uma experiência coletiva. Embora profundamente marcada pela intimidade, a obra não permanece restrita ao “eu”. As experiências de uma mulher negra, seus desejos, seus silêncios, suas feridas e suas estratégias de sobrevivência reverberam em outras mulheres e encontram na poesia uma possibilidade de reconhecimento.
No prefácio, a poeta Bell Puã identifica justamente essa passagem do individual ao coletivo. Para ela, a escrita de Ludmila Singa rompe silêncios e transforma a palavra em instrumento de enfrentamento, abundância e reinvenção: “Mulher Inteira me alvejou na exata mira do coração, ao lembrar que o versar de uma mulher negra potente é um pedaço da poesia que vive em todas nós.”
Essa dimensão coletiva atravessa o terceiro movimento, “O Amor, as Ruínas e o Reaprender”. Aqui, o amor aparece distante de idealizações: é desejo, encontro, ausência, permanência, luto, amizade e também aprendizado. Os poemas investigam o que permanece depois das rupturas e o que precisa ser desaprendido para que outras formas de vínculo possam existir.
O quarto movimento, “Revolução Silenciosa”, conduz a obra para uma afirmação ainda mais radical: não basta sobreviver. É preciso reconhecer-se como sujeito da própria história. Corpo Feito Reino, Caminho de Pedrinha Miúda, Arquitetas da Soberania, Inventar Sóis, Ninguém Brilha Sozinho, Atravessar, Altura que Me Pertence, Ferro e Flor, Silenciosa e O Parto compõem uma cartografia de autonomia, futuro e reinvenção.
Como síntese de sua obra, em O Parto, último poema do livro, Ludmila em escrita continua: “Morro para renascer: a mulher que retorna é sempre maior do que a que partiu.” Ao transformar a experiência pessoal em palavra, o que era íntimo passa a funcionar como ponte para outras pessoas leitoras. “Mulher Inteira”, nesse sentido, é também uma obra sobre encontros — com a própria história, com outras mulheres, com o amor, com o corpo e com a possibilidade de recomeçar.
Bell Puã lê essa dimensão coletiva na própria arquitetura da escrita de Ludmila. Para a poeta, quando o “eu lírico” se transforma em “nós-lírico”, a experiência individual passa a vibrar como experiência compartilhada, fazendo a rua, a performance e a oralidade ecoarem dentro dos versos.
Publicado pela Solisluna Editora, Mulher Inteira reúne texto de Ludmila Singa, revisão e preparação de texto de Ayala Tude, projeto gráfico e diagramação de Sofia Canário e ilustrações de Raiana Britto.
Este projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal repassados pelo Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado.
SERVIÇO
O quê: Lançamento do livro “Mulher Inteira”, de Ludmila Singa
Quando: 10 de outubro de 2026, às 18h
Onde: Livraria Terra Libris — Cinema Glauber Rocha
Endereço: Praça Castro Alves, Salvador – BA
Editora: Solisluna Editora
Pré-venda: Mulher Inteira já está em pré-venda pelo site da Solisluna Editora: https://encurtador.com.br/Taox












